Psicoterapia em situações de emergência: o que fazer em contextos de enchente e risco
- Eduarda Fonseca
- há 1 dia
- 5 min de leitura
Situações de enchente, desastre ambiental e ameaça à integridade física costumam produzir estados de crise psicológica aguda. Nesses contextos, o foco clínico inicial não deve ser aprofundamento emocional ou exploração extensa de significados, mas sim estabilização, segurança e recuperação mínima de funcionalidade. Em situações de ameaça real, o cérebro tende a operar em modo de sobrevivência, com aumento de ativação fisiológica, redução de flexibilidade cognitiva, dificuldade de planejamento e estreitamento atencional. Isso ajuda a compreender porque muitos pacientes apresentam confusão, sensação de incapacidade, pensamento catastrófico, hipervigilância ou paralisação comportamental.
Um aspecto importante nesses contextos é compreender que a sensação de perda de controle costuma ser um dos principais organizadores do sofrimento psicológico. Em situações de enchente e desastre, frequentemente ocorre ruptura abrupta de previsibilidade, segurança e estabilidade ambiental, o que pode gerar intenso estado de ameaça. Por isso, intervenções que aumentam sensação de orientação, organização e previsibilidade tendem a ter efeito regulador importante.
Dentro da Psicologia Baseada em Evidências e das Terapias Cognitivo-Comportamentais, especialmente em modelos voltados para trauma e intervenção em crise, entende-se que a primeira tarefa clínica é avaliar risco e segurança. Antes de qualquer aprofundamento emocional, é importante compreender se o paciente está em local seguro, se existe risco iminente, se há possibilidade de evacuação, acesso a medicação, documentos e rede de apoio. Em muitos casos, o terapeuta precisa assumir postura mais diretiva e organizadora, ajudando o paciente a recuperar capacidade mínima de ação.
Outro ponto importante é compreender que nem toda reação intensa diante de uma enchente ou desastre deve ser patologizada. Ansiedade elevada, tremor, choro intenso, sensação de irrealidade e dificuldade de concentração podem ser respostas normativas diante de um evento extremo. A literatura sobre trauma e estresse agudo mostra que exposição a eventos potencialmente traumáticos não leva automaticamente ao desenvolvimento de TEPT. A maioria das pessoas apresenta reações agudas esperadas diante do evento e tende a recuperar funcionamento ao longo do tempo, especialmente quando existe suporte social, redução da ameaça e possibilidade de reorganização gradual da rotina. Isso é importante para evitar patologização precoce de respostas humanas normativas.
Outro aspecto relevante é que intervenções excessivamente focadas em processamento emocional imediato podem ser inadequadas em momentos de ameaça ativa. Em contextos de risco real, o organismo ainda está mobilizado para sobrevivência. Por isso, muitos modelos contemporâneos de intervenção em crise enfatizam estabilização, grounding, manejo fisiológico e suporte prático antes de qualquer processamento traumático aprofundado.
As intervenções mais úteis nesse contexto costumam ser breves, concretas e focadas no presente. Estratégias de ancoragem, organização em micro-passos, validação emocional funcional e foco em ações imediatas tendem a ser mais efetivas do que interpretações profundas. O objetivo não é eliminar ansiedade, mas reduzir ativação suficiente para que o paciente consiga agir de maneira minimamente organizada.
A ACT também pode ser bastante útil nesses contextos, principalmente ao trabalhar presença, desfusão e ação orientada para segurança e valores, sem entrar inicialmente em formulações excessivamente abstratas. Dentro das TCCs contextuais, existe forte ênfase na flexibilidade psicológica em situações adversas. Isso inclui ajudar o paciente a entrar em contato com a realidade presente de forma mais funcional, reduzindo luta improdutiva contra experiências internas e aumentando capacidade de ação orientada para proteção, cuidado e valores importantes, mesmo diante do medo.
Também é importante considerar fatores de vulnerabilidade prévia. Pacientes com histórico de trauma, transtornos ansiosos, depressão, desregulação emocional importante, vulnerabilidade social ou ausência de rede de apoio podem apresentar maior dificuldade de recuperação após desastres ambientais. Da mesma forma, perdas secundárias — como deslocamento, perda financeira, ruptura de rotina e insegurança prolongada — frequentemente mantêm sofrimento psicológico mesmo após o fim do risco imediato.
Outro ponto importante é compreender que uma intervenção adequada em crise não significa apenas acolher emocionalmente. Existe diferença entre validação e amplificação emocional. Validar é reconhecer o sofrimento sem aumentar sensação de desamparo ou catastrofização. Além disso, o terapeuta deve reconhecer limites éticos e técnicos da atuação clínica, acionando rede de apoio, serviços de emergência e outros recursos quando necessário.
Exemplo clínico:
Paciente mulher, 38 anos, em atendimento online durante período de enchente. Relata que a água começou a subir rapidamente próximo de sua casa, está sozinha com dois filhos pequenos e o marido encontra-se viajando. Durante a sessão, apresenta fala acelerada, choro intenso e repete:
“Eu não consigo pensar, eu não sei o que fazer”.
Uma intervenção pouco funcional nesse contexto poderia ser:
“Mas o que exatamente você está sentindo em relação à possibilidade de perder sua casa?”
Apesar de bem-intencionada, essa intervenção aumenta abstração e tende a ampliar ativação emocional em um momento em que a paciente já apresenta sobrecarga significativa.
Uma intervenção mais adequada poderia ser:
“Tudo bem, vamos fazer uma coisa de cada vez. A água já entrou na casa?”
Depois disso, o terapeuta organiza a sessão a partir de elementos concretos:
risco imediato;
possibilidade de saída;
documentos;
medicação;
contato com rede de apoio;
segurança das crianças;
próximos passos possíveis.
Ao mesmo tempo, o terapeuta pode utilizar estratégias breves de regulação:
“Percebe seus pés no chão por um instante?”
“Vamos focar apenas no que precisa acontecer nas próximas horas.”
Nesse caso, o terapeuta não ignora emoções, mas entende que o aumento de organização e previsibilidade provavelmente terá efeito regulador mais importante do que exploração emocional aprofundada naquele momento.
De forma geral, a literatura em trauma, intervenção em crise e TCCs contextualizadas aponta que, em situações de desastre, segurança vem antes de insight. Muitas vezes, ajudar o paciente a recuperar capacidade mínima de organização e ação já constitui uma intervenção terapêutica extremamente relevante.
Em situações de desastre, uma intervenção clinicamente adequada nem sempre é a mais profunda ou elaborada. Muitas vezes, ela é a mais reguladora, organizada e funcional possível diante do contexto vivido pelo paciente.
Um dos principais desafios do terapeuta em situações de crise é tolerar não conseguir “resolver” completamente o sofrimento do paciente, mantendo ainda assim presença clínica, organização e capacidade de manejo.
Referências bibliográficas
Trauma and Recovery. Herman, J. L. Trauma and Recovery: The Aftermath of Violence — From Domestic Abuse to Political Terror. New York: Basic Books.
Crisis Intervention Strategies. James, R. K., & Gilliland, B. E. Crisis Intervention Strategies. Boston: Cengage Learning.
World Health Organization, War Trauma Foundation & World Vision International. Psychological First Aid: Guide for Field Workers. Geneva: World Health Organization.
ACT Made Simple. Harris, R. ACT Made Simple: An Easy-to-Read Primer on Acceptance and Commitment Therapy. Oakland: New Harbinger Publications.
Effective Treatments for PTSD. Foa, E. B., Keane, T. M., Friedman, M. J., & Cohen, J. A. Effective Treatments for PTSD: Practice Guidelines from the International Society for Traumatic Stress Studies. New York: Guilford Press.
Clinical Handbook of Psychological Disorders. Barlow, D. H. (Ed.). Clinical Handbook of Psychological Disorders: A Step-by-Step Treatment Manual. New York: Guilford Press.
American Psychological Association. Guidelines and resources related to psychological practice in disaster response and emergency settings. Washington, DC: American Psychological Association.
The Body Keeps the Score. van der Kolk, B. The Body Keeps the Score: Brain, Mind, and Body in the Healing of Trauma. New York: Viking.
Acceptance and Commitment Therapy. Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. Acceptance and Commitment Therapy: The Process and Practice of Mindful Change. New York: Guilford Press.
Cognitive Processing Therapy for PTSD. Resick, P. A., Monson, C. M., & Chard, K. M. Cognitive Processing Therapy for PTSD: A Comprehensive Manual. New York: Guilford Press.
Comentários